o Sol
Evento Carrington: o que a tempestade solar de 1859 faria hoje
Em 1859, o Sol fez os telégrafos soltarem faísca. A próxima tempestade desse tamanho vai encontrar um mundo que depende da tomada para quase tudo.
Entre 1º e 2 de setembro de 1859, os fios do telégrafo começaram a soltar faíscas na Europa e na América do Norte. Operadores levaram choques e houve até incêndios em estações de telégrafo. Entre Boston e Portland, no nordeste dos Estados Unidos, dois operadores desligaram as baterias e trocaram mensagens por cerca de duas horas só com a corrente que a tempestade criava nos fios. No fim das contas, a energia vinha do Sol. O episódio ficou conhecido como Evento Carrington, a tempestade geomagnética mais forte de que se tem registro.
A maior tempestade solar já registrada
Tudo começou em 1º de setembro de 1859, quando o astrônomo inglês Richard Carrington observava as manchas do Sol e viu surgir sobre elas um clarão de luz branca. Foi o primeiro registro de uma erupção solar, feito por ele e, ao mesmo tempo, por outro inglês, Richard Hodgson.
Junto com o clarão, o Sol lançou uma nuvem enorme de partículas e campo magnético, que chegou à Terra em cerca de 17 horas e meia. Viagens assim costumam levar alguns dias. O choque com o campo magnético da Terra provocou auroras em lugares onde quase ninguém tinha visto uma, como Cuba, o Havaí e até a Colômbia, perto da linha do Equador.
Em 1859, quase nada dependia de eletricidade
O telégrafo era a internet da época, e quase nada mais dependia de eletricidade. Por isso o Evento Carrington ficou na história como um espetáculo de auroras e uma curiosidade técnica. Hoje, quase tudo depende da tomada.
Segundo a NASA, um golpe direto desse tamanho poderia causar apagões extensos e desligar tudo o que vai na tomada. O ponto mais frágil são as redes de energia: as linhas de transmissão muito longas captam a corrente induzida pela tempestade, e os grandes transformadores podem ser danificados. Satélites, GPS e comunicações por rádio também sofrem.
Os avisos recentes
- Março de 1989. Uma tempestade menor que a de Carrington derrubou a rede da Hydro-Québec, no Canadá, em menos de um minuto. A província ficou no escuro por mais de nove horas.
- Julho de 2012. Em 23 de julho, o Sol lançou uma nuvem do porte daquela de 1859, que cruzou a órbita da Terra num ponto onde a Terra não estava. “Se a erupção tivesse acontecido apenas uma semana antes, a Terra estaria na linha de tiro”, diz o físico Daniel Baker, da Universidade do Colorado, num artigo da NASA. No mesmo artigo, ele resume: “Se tivesse atingido, ainda estaríamos juntando os cacos.” (As falas foram traduzidas do inglês.)
- Maio de 2024. A Terra teve a tempestade geomagnética mais forte desde 2003, de nível extremo (G5) na escala da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera, que também acompanha o clima espacial.
- Outubro de 2024. A NASA e a NOAA anunciaram que o Sol tinha entrado no período de máximo do seu ciclo de cerca de 11 anos, a fase de mais manchas e mais erupções.
A chance de acontecer de novo
Um cálculo do físico Pete Riley, citado pela NASA, estimou em 12% a chance de uma tempestade do tamanho da de Carrington atingir a Terra em dez anos. Em 2017, um estudo do próprio Riley com Jeffrey Love, do Serviço Geológico dos Estados Unidos, chegou a valores entre 3% e 10%, conforme o método. A incerteza é grande, mas tempestades desse tamanho já aconteceram e podem acontecer de novo.
O que pode cair, a não ser que tudo mude antes
O Sol não ameaça diretamente quem está no chão: o campo magnético e a atmosfera da Terra seguram a radiação. O que uma tempestade dessas ameaça é a estrutura que pusemos em cima do planeta. São as redes elétricas, os satélites e, apoiada neles, uma vida cada vez mais concentrada na computação em nuvem de poucas empresas de tecnologia, a tecnocracia das big techs.
É essa estrutura que uma tempestade solar pode varrer, a não ser que tudo mude antes. Uma vida inteira apoiada numa estrutura só, que fica longe, é frágil. E a queda atingiria todo mundo, inclusive serviços básicos: segundo a NASA, o abastecimento de água das cidades depende em boa parte de bombas elétricas.
Por isso o caminho é mudar antes: energia própria, conhecimento guardado em casa e ferramentas que funcionam sem internet. Na prática, isso começa por duas frentes, a autonomia digital e a vida off-grid.
Para ir além
- NASA, “Near Miss: The Solar Superstorm of July 2012” (em inglês)
- Riley e Love (2017), a chance de outra tempestade como a de Carrington em dez anos (em inglês)
- Hydro-Québec, o apagão de março de 1989 (em inglês)
- NOAA, a tempestade de maio de 2024 (em inglês)
- NASA e NOAA, o anúncio do máximo solar (em inglês)
- NOAA, a escala das tempestades geomagnéticas (em inglês)
- Tempestade solar de 1859, na Wikipédia
- Carrington Event, na Wikipédia em inglês (mais completa)
Texto escrito com inteligência artificial (Claude Opus 5.5) a partir das ideias da Onirika.
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