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Autonomia digital: como deixar de ser o pré-sal das big techs
Se os dados são o novo petróleo, o pré-sal somos nós. O que é autonomia digital e cinco passos para sair, aos poucos, da roda do feed infinito.
No começo dos anos 2000, boa parte do bate-papo na internet brasileira passava pelo mIRC, um programa de bate-papo baseado num protocolo aberto, o IRC. O programa era feio e pouco intuitivo, mas dava poder a quem usava: dava para personalizá-lo com scripts, criar o próprio canal, definir as próprias regras e escolher quem cuidava delas. Para alguns, foi ali a primeira experiência com programação. Aí veio o MSN Messenger, bonito, fácil, cheio de emoticons e sonzinhos, e sem a liberdade de criar canais, definir regras ou mexer no programa. A estética venceu a funcionalidade.
A troca nunca parou de se repetir, e a escolha continua a mesma: estética e facilidade, ou liberdade e privacidade. Autonomia digital é usar a tecnologia sem ser usado por ela. É poder escolher o sistema do computador, onde ficam os dados, por onde se conversa e para onde vai a atenção, sem depender de meia dúzia de empresas gigantes, as chamadas big techs.
Os dados são o novo petróleo, e o pré-sal somos nós
O petróleo moveu as máquinas do século XX. As máquinas de agora, movidas a inteligência artificial, precisam de outra coisa: aprender. E aprendem com a gente, imitando o comportamento e as escolhas que deixamos nas redes. Não por acaso, várias das maiores empresas do mundo são empresas de dados.
A internet funciona como uma imensa perfuradora. Se os dados são o petróleo, nós somos o pré-sal, a reserva que o Brasil encontrou sob uma camada de sal, no fundo do mar. As redes sociais nos perfuram, coletam os nossos dados e fazem a IA funcionar. Isso vira do avesso a ideia de serviço gratuito: não são elas que nos oferecem um serviço de graça. Somos nós que doamos dados para elas, a cada minuto.
A imagem da perfuração aparece também na pesquisa. Em 2025, D. Graham Burnett, da Universidade de Princeton, e Eve Mitchell, da Strother School of Radical Attention, publicaram um artigo sobre o tema. Nele, a exploração da atenção pelas plataformas, com design viciante e extração de dados, ganha um nome: “human fracking”, o fracking humano. Fracking, ou fraturamento hidráulico, é a técnica de quebrar rochas no subsolo para tirar petróleo e gás. O poço, nesse caso, é a gente.
Uma roda de samsara no celular
Nas religiões indianas, como o budismo, a roda de samsara é o ciclo de nascer e renascer, de novo e de novo, até a libertação, que o budismo chama de nirvana. O feed infinito virou uma versão de bolso dessa roda: gira sem parar, puxa a atenção e devolve sempre mais do mesmo. Botaram uma roda de samsara no celular.
A indústria do petróleo perfurou a terra. A indústria dos dados perfura as pessoas. A boa notícia é que dá para ir saindo disso aos poucos.
A mente também tem algoritmo
A mesma lógica vale dentro da cabeça. A mente funciona como um algoritmo. Na rede social dos pensamentos, chegam sugestões o tempo todo, e quanto mais se consome um tipo de pensamento, mais pensamentos daquele tipo aparecem. Um pensamento desagradável não some de uma vez: continua sendo sugerido até o algoritmo perceber que ninguém clica mais nele.
A saída é parecida com a de treinar um feed: perceber, recusar o que não gera valor e “clicar” no que gera. Uma e outra vez.
Por onde começar, aos poucos
O zine Onirika 000 chama essa atitude de “anarco digital”: usar Linux e redes sociais saudáveis e sair do domínio das big techs. Ninguém precisa trocar tudo de uma vez. Alguns primeiros passos:
- O computador. O Linux é um sistema livre e gratuito. Distribuições como o Linux Mint costumam ser indicadas para quem está começando, porque lembram o Windows, e dá para testar direto de um pendrive antes de instalar.
- As conversas. O Signal é um aplicativo de mensagens com criptografia de ponta a ponta, mantido por uma fundação sem fins lucrativos.
- As redes sociais. O Mastodon e as outras redes do chamado fediverso não têm um dono só. São muitos servidores ligados entre si, cada um com as próprias regras. É o espírito dos canais do mIRC, de volta.
- A inteligência artificial. Já existem modelos de IA que podem ser baixados e rodar no próprio computador, sem mandar nada para a nuvem. Programas como o Ollama e o LM Studio fazem isso.
- A atenção. Talvez o passo mais importante não seja técnico. O coletivo Amigos da Atenção (Friends of Attention) e a escola ligada a ele, a Strother School of Radical Attention, propõem os santuários da atenção: espaços criados em grupo para cuidar da atenção, longe da lógica que a transforma em mercadoria, como uma biblioteca, um museu ou uma sala de aula. Na leitura da Onirika, um santuário também pode ser um tempo com o celular longe, dedicado a algo que tem valor real, como uma música, uma arte, um cuidado ou um trabalho.
Autonomia digital não é fugir da tecnologia. É deixar de ser o pré-sal e voltar a escolher.
Para ir além
- Linux Mint (em inglês)
- Signal
- Mastodon
- Ollama (em inglês)
- LM Studio (em inglês)
- Friends of Attention (em inglês)
- Strother School of Radical Attention, os santuários da atenção (em inglês)
- Academia de Ciências de Nova York, o comunicado sobre o artigo dos santuários da atenção (em inglês)
- Samsara, na Wikipédia
Texto escrito com inteligência artificial (Claude Opus 5.5) a partir das ideias da Onirika.
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